1/9
 

Coletivo Kókir

Epry Nen Mág

~

~

Caminhos do Mato

Vídeos da Exposição
Live com o Coletivo Kókir
Projeto Educativo
Encontro com o Educativo Fogueira Virtual com a participação do Coletivo Kókir e Organização Thydewá
Epry Nen Mág
~
~
Caminhos do Mato
Em cartaz de 21/mai a 2/jul/2022

Fome de vida

Para o povo Kaingang a palavra Kókir é sinônimo de fome. O termo nomeia o coletivo artístico de Sheilla Souza e Tadeu Kaingang e nos leva às dimensões reais e simbólicas da fome, em uma sociedade que sucumbe às forças devastadoras do capitalismo. Temos fome real, mas temos fomes de outras naturezas. Temos “kókir” de justiça, alegria, bondade, beleza, luta e pertencimento. Temos “kókir” de bem-viver. Precisamos retornar à abundância e ancestralidade da terra, porém uma volta que deve ser feita à maneira como o próprio Kókir definiu: pela “re-volta”. O jogo linguístico desvela a urgência do retorno às origens. E esta “re-volta” foi trançada pelo amor. Sheilla e Tadeu se uniram para compartilhar vida e arte, consagrando a ideia tão comum aos povos originários de que não existe divisão entre o real e o estético. 

Assim, o coletivo Kókir transita entre as estratégias da arte contemporânea e as cosmo-percepções das comunidades originárias. São ações coletivas e compartilhadas, que articulam artistas, não artistas, indígenas de diversas etnias, não indígenas; estratégias de ocupação de territórios urbanos e indígenas para debater o direito, a etnografia e a política dos espaços; proposições altamente conceituais, mas que abarcam a compreensão e o prazer da forma e da contemplação; usos de tecnologias e novas mídias para falar de ancestralidade; trânsitos entre objetos e fazeres prosaicos, como as cestarias Kaingang, que revelam a generosidade estética da vida cotidiana. São obras sinestésicas, que reivindicam todos os sentidos para a consumação da experiência estética, superando o “império do olhar” da tradição hegemônica ocidental. 

Sobretudo, o trabalho deste coletivo pode ser compreendido dentro do panorama da “virada decolonial”, momento decisivo e inédito para a cultura ocidental. Esta revolução quer acabar com a exígua representatividade de pessoas pobres, negras, indígenas, periféricas, não binárias, entre outras, nos lugares centrais que regem o sistema da arte, inclusive em seus espaços de poder e decisão. É uma virada que aponta para a urgente necessidade de reparação frente ao sistemático apagamento de experiências e memórias não eurocêntricas. Se não sabemos mais como seguir em frente diante da catástrofe da modernidade, devemos voltar a nossas origens, como diria um provérbio iorubá. Sheilla e Tadeu encontraram o caminho de volta. Com sua “re-volta”, eles retornam às trilhas abertas por seus ancestrais Kaingang, e por indígenas de outras etnias da Abya Yala que participam de suas co-criações. Eles agora generosamente compartilham este retorno conosco, fruidores de suas obras. 

 

Alessandra Simões

Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA), Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA)

Coletivo Kókir

O coletivo é formado pelo casal Tadeu dos Santos Kaingang e Sheilla Souza. Ambos são artistas multimídia, professores no curso de Artes Visuais da Universidade Estadual de Maringá (UEM) e membros da diretoria da Associação Indigenista – ASSINDI – Maringá, fundada por Darcy Dias de Souza, mãe de Sheilla. A entidade atua há mais de vinte anos oferecendo moradia para universitários indígenas Guarani e Kaingang que estudam na UEM e também acolhendo artistas indígenas Kaingang que buscam as cidades para comercializar sua cestaria. 
O coletivo continuamente se expande em criações compartilhadas com indígenas e não indígenas. Kókir significa fome na língua Kaingang. Na incorporação de conhecimentos originários, o coletivo busca matar a fome de reconhecimento de parentesco com os povos indígenas. Sheilla e Tadeu receberam dos Guarani Nhandewa os nomes Kunhã Werawydju e Awa Djembowyty, que significam raio, nas versões masculina e feminina. Luz e energia ancestral direcionada à arte contemporânea são a síntese das ações do coletivo. 
Os trabalhos presentes na exposição manifestam o que o coletivo define como antropofagia reversa que, ao contrário da apropriação dos saberes dos povos originários, indica uma incorporação e identificação pelo reconhecimento do parentesco. Sabemos da dificuldade que isso significa, pois, a grande maioria dos brasileiros desconhece a etnia indígena de seus antepassados. Tadeu conta que descobriu sua descendência indígena com quase cinquenta anos, depois do contato com os indígenas acolhidos pela ASSINDI. O fio condutor de Ẽpry Nẽn Mág - Caminhos do Mato é a possibilidade de mergulhar em trilhas que nos conduzem ao encontro com saberes ancestrais. O caminho da “re-volta”, proposto pelo coletivo, é um percurso contra o apagamento dos povos originários e contra a necropolítica fascista e neoliberal. As imagens apontam para a reflexão sobre o reconhecimento de parentes indígenas, plantas, animais, pedras e elementos que nos trazem a consciência de que somos natureza. Para a exposição na galeria Casa de Eva o coletivo reuniu trabalhos criados em colaboração com os artistas indígenas: Andrés Mapuche (Chile), Cacau Tupinambá (Bahia/BR), Carina Dessana (Amazônia/BR), Claudite Alípio Kaingang (Paraná/BR), Elias Cauréy (Bolívia), Florêncio Rekayg (Paraná/BR), Kadu Xucuru (Pernambuco/BR), Lurdes Alípio Kaingang (Paraná/BR), Mariela Tulián (Argentina), Naine Terena (Mato Grosso/BR), OzZo Ukumari (Bolívia) e Shiraigo Lanche (Argentina). As cocriações também têm a participação de artistas não indígenas: Angela Berlinde (Portugal), Anna Carolina de Barros Campagnac (BA/Brasil), Aruma (Bolívia), Darcy Dias de Souza (PR/Brasil), Júlia Tiemi (PR/Brasil), Kevin de Morais (PR/Brasil), Sebastián Gerlic (Argentina) e Valéria Scornaienchi (SP/Brasil), entre outros. Os trabalhos apresentados na exposição têm ligação com projetos da Universidade Estadual de Maringá (PR), da Associação Indigenista – ASSINDI – Maringá, da Miller-Zillmer Foundation e da ONSC Thydêwá, com a qual o coletivo desenvolveu os vídeos presentes na mostra. Os vídeos foram criados no evento Arte com indígenas em residências eletrônicas – AIRE - https://www.thydewa.org/aire-arte-com-indigenas-em-residencias-eletronicas/ em 2021.

CONFIRA AS EXPOSIÇÕES PASSADAS: