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Sylvia Furegatti

Pedra_Planta

Pedra_Planta
Em cartaz de 13/jun a
Planta-pedra: das linhas que reativam o mistério da vida

 

As folhas das plantas dão a sentir o mistério da vida na Terra. Não apenas a vida dos indivíduos a que pertencem, mas a vida de todo o reino vegetal e de toda a biosfera (Coccia, 2018). Cada folha traz em si todas as outras folhas, cada planta todas as outras plantas, cada reino todos os outros reinos, seja vegetal, animal ou mineral. Percepções fractais que emergem dos gestos da artista Sylvia Furegatti, que brotam dos modos como usa e pensa o desenho, a fotografia e a montagem. Os desenhos feitos nas folhas de aloe vera e espada de São Jorge expõem outras plantas colhidas de seus arquivos de imagens catalogadas pela Botânica. Desenhos que não seguem as linhas de parentesco, descendência e filiação que tradicionalmente movem tanto a biologia como a antropologia, antes abrem as plantas, o arquivo, a Botânica e os humanos para relações não previamente programadas, interrogando os roteiros Ocidentais modernos. São modos de dar expressão a parentescos aberrantes, podemos pensar com Donna Haraway (2016), a linhas mais próximas da linha da vida, a histórias inscritas nessas superfícies que não são lineares, sucessivas e evidentes. Nas composições entre pedras e folhas de várias plantas diferentes, jibóia, jaqueira, palmeira, orquídea etc., os desenhos entre pedras e plantas exibem como a vida procede ao longo de linhas, como viver é um constante transmutar-se e tornar-se ao longo de linhas (Ingold, 2015). As linhas das folhas e os contornos dos corpos vegetais já se encontram adormecidos nas pedras. É como se as plantas já existissem desenhadas e sonhadas pelas pedras. Talvez as pedras possam ser pensadas como os primeiros desenhistas do mundo. Como se as pedras guardassem uma memória elemental de futuro e as plantas aprendessem a fazer pedra por outras linhas, criando e recriando-se a si mesmas e ao mundo em mútuas relações. A potência da expressividade da linha é a da conexão, não se tem mais plantas ou pedras, mas plantas-pedras, um bloco de relações que ganha existência pelo desenho e passa a mover delicadamente nossas percepções para fora do habitual. Somos convidados a seguir por conexões abertas, móveis e provisórias, pois que as linhas não aprisionam, não determinam, apenas sugerem. As fotografias, tal como as folhas que abraçam e acolhem as pedras, abraçam e acolhem as plantas-pedras e permitem criar outras composições com novos elementos. Plantas-pedras repousam sobre o chão junto com linhas liberadas pelas plantas para a terra, seja em galhos ou folhas secas. Linhas que pela decomposição serão liberadas das formas já dadas e histórias já vividas e se tornarão disponíveis para outros encontros, para a invenção de outras vidas possíveis. A fotografia não apenas registra e conserva as composições planta-pedra, antes participa com o desenho do processo contínuo de liberação das linhas para que elas possam seguir variando. A inserção desse bloco desenho-fotografia nos back lights dão a perceber que o segredo de plantas, pedras, desenhos, fotografias, humanos... é a luz. Tudo é iluminado desde dentro e num detalhe da folha de aloe vera vemos como as linhas do desenho se transformam em fissuras que deixam vazar algo desse corpo-luz das plantas. As caixas de madeira que contém a iluminação, a fotografia, o desenho, as pedras e as plantas parecem redesenhar tudo novamente num novo bloco de relações do qual, agora, participam as árvores. Sentimos como toda a vida se faz na relação com a luz, na possibilidade dos corpos e superfícies se relacionarem com a luz. Se as pedras podem ser os primeiros desenhistas do mundo, talvez as plantas possam ser, ao mesmo tempo, as primeiras máquinas fotográficas, fotógrafas e fotografias do mundo. Elas nos ensinam que fotografar é sintetizar luz, tornar-se capaz de se relacionar com o Sol, produzir energia e torná-la disponível para inúmeros outros processos e seres. Fotografar é transformar matéria em material e fazer corpo com o mundo, é fazer do corpo casa, refúgio para inúmeras outras formas de vida, é aprender a desenhar com linhas de luz. Daí que a Casa de Eva seja como mais bloco que abriga e transforma as caixas de madeira, back lights, fotografias, desenhos, plantas e pedras. As espadas de São Jorge com desenhos, do lado de fora da casa, já anunciam que o mistério das plantas tem a ver com essa espécie de desenhos de luz sem fim que as plantas traçam com as pedras e com toda a biosfera. Desenhos que nos convidam a reativar continuuns entre dentro e fora, entre desenhos e fotografias, entre plantas e pedras, entre humanos e não-humanos, entre arte e vida. Daí que o artista, como sentimos com Sylvia, possa tornar-se esse ser que aprende a carregar um jardim aberrante dentro de si, e se dispõe a esses aprendizados ao trançar suas linhas pelo emaranhados dos mundos, contribuindo para que os movimentos dos mundos possam seguir protegidos por caminhos abertos e indeterminados, ou seja, misteriosos.  

Susana Dias

 

COCCIA, Emanuele. A vida das plantas: uma metafísica da mistura. Trad. Fernando Scheibe. Desterro [Florianópolis]: Cultura e Barbárie, 2018.

INGOLD, Tim. Líneas: una breve historia. Trad. Carlos García Simón. Barcelona: Ed. Gedisa, 2015.

HARAWAY, Donna. Antropoceno, Capitaloceno, Plantationoceno, Chthuluceno: fazendo parentes. Trad. Susana Dias. ClimaCom, ano 3, n.5, 2016.  

Sylvia Furegatti

Sylvia Furegatti vive e trabalha em Campinas. Doutorou-se em História da Arquitetura e Urbanismo pela FAU-USP onde desenvolveu tese sobre a Formação da Arte Pública e Urbana no Brasil. Mestre pela mesma instituição; é Especialista em Museus de Arte pelo MAC-USP e tem bacharelado em Artes Plásticas pela Unicamp.

Atua como artista pesquisadora dedicada à temática da arte contemporânea. Produz projetos de exposição envolvendo instalações, objetos e intervenções artísticas no meio urbano além de curadorias e textos. É membro fundador do Grupo Pparalelo de Arte Contemporânea. É docente do departamento de Artes Visuais da Unicamp e atualmente ocupa o cargo de Assessora Cultural do SAE-Unicamp. 

Dentre seus principais projetos artísticos destacam-se: Empoderamiento - Brasil/Paraguay (2012-13); Belém como cidade centro do mundo - projeto de arte pública (2012); Receta de Intenciones n.5 - residencia no Lugar a Dudas - Colombia (Grupo Pparalelo) 2011; Lugar de Contemplação – Intervenção e instalação na Galeria Penteado Campinas (2010); Seres Primordiais – Galeria de Arte da Unicamp, Sala de Vitrine ATQG e Itinerância do Projeto Calendário (2009-10); a participação na exposição 79>09 no MAC Campinas (2009); a Intervenção urbana Monitoria Espontânea realizada em São José dos Campos (2010); a intervenção urbana Frases Curtas, Pensamento Longos no projeto Fluxus – Informação, Arte e Saúde 2008, I Salão Arte Cidade da UFBA Salvador 2008; Exposição Por um Fio, Paço das Artes de SP e Centro Cultural CPFL Campinas (curadoria de Daniela Bousso, novembro/agosto/2007); a intervenção artística Arquiteturas Prováveis na Unicamp (2005); a intervenção Cont-Nation (Campinas/setembro/2007); o projeto Escultura 24 hs. criado para a Virada Cultural do Estado de SP em Campinas (Coletivo Ateliê Aberto-maio/2007) além do prêmio Rumos Visuais Itaú Cultural no ano de 2006 com a instalação Título de Pintura (SP;RJ;GO).

Foi premiada pela Lei de Incentivo Premio Estímulo de Campinas (1992;1997) e tem citações sobre seu trabalho artístico no livro Novíssima Arte Brasileira de Kátia Canton, Iluminuras, 2001, (págs. 99,10 e 190) além de publicações periódicas tais como: Caderno MAIS! Folha São Paulo, Revista Veredas – CCBB/RJ; Caderno Ilustrada – Folha de São Paulo; Caderno C – Jornal O Estado de SP; Revista Bravo; Revista Veja; Cadernos de Cultura de jornais locais como Correio Popular, Veja Campinas, Jornal do Cambuí e Diário do Povo, etc.